sexta-feira, 16 de abril de 2010

As idéias, os medos e o mundo

A insignificância do ser:


Durante muito tempo, a discussão a cerca da relação entre o homem e Deus esteve pendente para o lado do criador. Descarte já nos atentava para que a idéia de um ser perfeito existir entre os homens era impossível de se consumar e que por isso a figura de Deus foi a única que conseguiu se encaixar nesse sentido de ser incapaz de errar. O homem, imperfeito por natureza, jamais poderia ousar se colocar em um patamar como o do criador, pois já lhe era dito desde o começo de sua vida que o topo já estava ocupado e que contestar certas regras existentes desde a criação do mundo era um pecado tão enorme que apenas a morte do pecador seria capaz de livrar o mundo de sua heresia (como se uma morte humana matasse junto uma idéia, não é?). Sendo assim, ao longo dos séculos, a figura de Deus passou a ser uma espécie de parâmetro inalcançável, mas que valia a pena tentar fazer o máximo em vida para não errar. Se assim fosse feito durante todo o período carnal, se tivesse acreditado fielmente em tudo que lhe havia sido dito após o nascimento e seguisse direitinhas as regras do jogo de Deus, automaticamente você se tornava apto para viver ao lado da suprema perfeição, e dela fazer parte em consciência.

Contudo, contradições que não foram respondidas até hoje acabaram por determinar uma enorme mudança de pensamento capaz de fazer a balança do jogo de significância do ser pesar para o lado do homem a partir da chamada era moderna. Contradições como o fato de que aquele que é descrito como infinito em sua misericórdia também deixar claro que todos serão julgados e apenas os que ele, o infinito em sua misericórdia, achar que são os justos serão salvos do sofrimento eterno. Deus deu a vida ao homem e também fez o mundo que é a sua casa, depois disso lhe deu o livre arbítrio para que vivesse sua vida da maneira que bem quisesse até que o juízo final viesse para lhe dar seu veredicto.

Dessa forma, estamos aqui graças a Deus, mas estamos aqui para viver tudo o que quisermos e experimentarmos os prazeres e nossas fraquezas que são insignificantes para Deus e não são para nós, correto? Então somos mesmo nós que devemos tudo a Deus, não é?! Mas sabe? Um dia alguém disse que Roma era plebe...ou seja, um líder somente é um líder se houver gente para que ele lidere e Deus só é Deus e perfeito porque nós, homens, humanos e imperfeitos até o último fio do cabelo existimos. A idéia de perfeição só se torna passível de entendimento se houver uma idéia contrária a ela que seja de fato clara em seus defeitos.

Hegel havia formulado uma teoria de que o pensamento segue uma linha de choque entre uma tese e uma anti-tese e que desse choque sairá uma síntese boa e única que reunirá os melhores de cada uma das idéias inicialmente postas em sentido contrário. Sendo Deus perfeito em sua natureza e o homem imperfeito desde sua criação (mesmo que descrita como a imagem e semelhança do próprio Deus) o ideal para povoar a terra seria uma síntese entre a tese de Deus e a anti-tese dos homens? Creio eu que sim. Mas o que seriam essas criaturas que não são Deus e também não são homens? A resposta é simples para mim: são as idéias! As idéias criaram a luz eterna e divina e também as imperfeições do homem, mas que fique claro aqui que não penso que apenas elas devem existir no mundo, pois como eu já disse anteriormente, nada consegue viver estando sozinho. Sempre será necessário um outro para que se as idéias se criem de forma natural e possam reger o mundo.
A força das idéias é tão enorme que já criaram um Deus que dita a vida e a forma como ela deve seguir para que se chegue ao paraíso (uma outra idéia) e também já o mataram. Hoje em dia a força da idéia de Deus ainda vive, mesmo que já tenha morrido para alguns, mas já não consegue competir com a idéia comum a grande maioria dos homens. A idéia do mundo único e sem fronteiras promete derrubar não somente a idéia de Deus, mas também a própria idéia de idéia. Em um mundo onde tudo é igual, a tese vence a inexistente anti-tese sem choque e assim não se cria uma nova síntese que irá se tornar novamente tese na cadeia infinita de idéias que se chocam.

O filósofo Nietzsche constatou em sua época a morte da idéia de Deus e isso causou ao mundo uma enorme mudança, não é? Bem sabia ele que essas mudanças iriam acontecer e o mundo daria mais um passo. Eu o invejo por isso...o que eu constato no mundo é algo justamente ao contrário disso. Tomara que eu esteja errado, mas o que hoje eu percebo no mundo é uma morte que deixaria o próprio Nietzsche totalmente apavorado, tal como eu estou. O tal mundo sem fronteiras levado do jeito que está é perfeitamente capaz de viver, ao contrário de Deus, sem a presença do homem como indivíduo. Ele não precisa de que o homem o siga de perto para depois viva com ele enquanto consciência. Para ele, basta que o homem siga o padrão que ele entende ser o ideal daquele momento e tudo estará no rumo que sua ótica julga ser a correta. Os que ousam discordar dele não são mais tidos apenas como hereges, mas sim loucos, foras de moda, ou seja, seres insignificantes mesmo.

Tão insignificantes que não precisam mais morrer por estarem contra a idéia de perfeição que está instalada nesse instante. É muito mais divertido para esse mundo perverso e sem limites que esses loucos fiquem vivos e vivam diariamente a sensação de perda, de derrota, ou até a própria sensação morte mesmo, só de saberem que a cada dia o mundo sem fronteiras os derrota e os esfrega sua vitória no rosto afim de que estes se sintam tão desmotivados que acabem guardando para si ou para muito poucos seus sentimentos e suas sensações para com a ordem que está sendo seguida no mundo naquele instante.

Sendo assim, como Nietzsche noticiou a todos a morte de Deus em prol de uma nova ordem natural das coisas, eu venho noticiar a ninguém a morte das idéias em prol não de uma nova ordem, mas de uma mesma e eterna ordem de um mundo sem fronteiras que não precisa do homem como indivíduo para nada. A minha resposta a esse mundo é a de que se eu não significo nada para ele, ele também não significará nada para mim. Eu, pobre homem indefeso e imperfeito, desafiarei o mundo sem fronteiras e viverei a minha vida inteira no meu próprio mundo.

Se eu vou agir de acordo com os ideais do mundo sem fronteira durante a minha vida, eu nunca vou saber. Eu sou pequeno demais e posso também ser engolido por ele que é um gigante, mas de uma coisa eu tenho certeza...Luta não irá faltar! Sou eu quem vai sumir do mundo e tirar o meu próprio mundo do lugar. Isso será trabalho e provavelmente não dará em nada, eu sei, mas é a, para mim, forma mais legal de viver. É melhor viver do que vivenciar...a vida é uma só!

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